sábado, 16 de novembro de 2013

Voltei!

Não só pro blog mas pro Brasil! Que viagem! Foi uma decisão até que fácil, já que, por questões profissionais, surgiu a necessidade oportunidade e porque, em uma viagem anterior ao Brasil para festejar o Natal e o aniversário do Rico, percebemos o quanto a presença da família é importante para as crianças. [Lara, sob um sol de uns 30 graus, na laje da casa da minha irmã, com os pés dentro de um balde d'água e uma costelinha na mão, solta: "Ai, mãe, isso é que é vida!". Depois dessa, a decisão estava tomada.]
Muita burocracia e 6 meses de preparação nos trouxeram de volta, não para o nosso apê em São Paulo, mas para Curitiba. Achamos que o choque de sair de Bonn direto pra SP seria tremendo. Então, optamos por tremer de frio.  Mas foi por pouco tempo.

Tão logo chegamos, começamos a procurar uma casa. Apesar de tanto ouvir sobre o quanto uma casa é perigosa, não queríamos morar em apartamento. Em menos de 15 dias, por um erro no caminho, encontramos nosso lar. Estamos super felizes e satisfeitos, pois nossa rua lembra cidade do interior e a relação com os vizinhos não poderia ser melhor. Por incrível que pareça, tem uns três descendentes de alemães na rua, que fica perto do Bosque Alemão, onde tem uma confeitaria alemã que vende bolos e Lebekuchen melhores que os alemães.

O blog continuará a se chamar "Tudo de Bonn", mas também terá um pouco de Curitiba. Será a partir de agora, para os mais chegados, "Tudo de Bonn direto de Curitiba. Abreviando: "Tudo de Cu", como diria a minha amiga Juliana, que é curitibana e que continua lááá em Bonn.

Coincidências

Além de várias coincidências como essa da Juliana, tem a da Fernanda. Seu marido, que havia aceito uma transferência para a Alemanha, me contatou pelo blog pra saber sobre a vida em Bonn. Um belo dia, ao passear com o cachorrinho deles na porta do prédio onde estavam morando, ele ouviu o Amanzor conversando em português com a Lara e o Rico, ao passar por ele, e perguntou se eram brasileiros e conversa vai, conversa vem, ele disse que conheceu uma pessoa que tinha um blog, que por acaso era eu. Eles acabaram vindo morar no mesmo bairro que a gente! E a Fernanda, por incrível que pareça, é de Curitiba e havia morado na mesma rua do Amanzor, em um prédio quase em frente. E o marido dela, no Baeta, meu bairro em SBCampo. Olha só.

Continuando com as coincidências, passamos um sábado inteiro visitando casas em bairros próximos à escola alemã onde a Lara estuda. Mesmo cansados, convenci o motorista, digo, marido, a ver uma casa que eu tinha pescado na internet. Como boa co-piloto, indiquei o caminho errado e, na curva da rua errada, vimos 4 sobradinhos novinhos, um já vendido. Ligamos para o número de telefone. Ninguém atendeu. Mais pra baixo tinha uma outra casa à venda, ligamos. Muito cara. Toca o telefone, não sabíamos quem era. O cara disse que nós tinhamos ligado pra ele. Nisso, pára um carro ao lado do nosso e, ainda com o telefone no ouvido, o senhor nos pergunta se é com ele que estávamos falando. Era o construtor do sobrado. Ele disse que poderia nos mostrar na hora.
Adoramos tudo e, dois dias depois, negócio fechado. Ouvimos uns blábláblás, que temos que tomar cuidado, porque foi tudo muito rápido, que podia ter trambique. Na verdade, rápidos fomos nós. Dois dias mais tarde, retornamos à casa pra pegar o alvará e as plantas. Nem tínhamos pago o sinal e o construtor já estava com o recibo pronto e nos entregou, sem que tivéssemos feito o depósito. O seu irmão e sócio também estava presente e, conversa vai, conversa vem, ele disse onde trabalhava e o Amanzor falou que o primo dele também tinha trabalhado lá. Quando deu o nome do primo, o cara não acreditou. É sócio e melhor amigo dele. Aí foi mamão com mel, ou mamão com açúcar ou sopa no mel. Nâo houve nenhuma pedra no caminho. Deixaram até a gente  descarregar o container direto no sobrado, sem nem termos terminado de pagar e, sem ter dado a última parcela, deixaram a gente mudar. Os irmãos construtores são pessoas super idôneas e mãos à obra. Pedimos o telefone do rapaz da calha pra colocar uma no muro do fundo, o construtor ligou na hora e, no dia seguinte, os três sobrados estavam com calhas nos muros e ele não deixou a gente pagar. Conseguem ver algum alemão fazendo isso?
 Algum tempo depois, fiquei mais de uma hora conversando com uma mãe de aluno da escola da Lara. Ela é artista plástica (atualmente com exposição na Bienal de Curitiba), a Tatiana Stropp, e conversa vai, conversa vem, descobri que ela mora em um sobrado construído pelo mesmo arquiteto que projetou o nosso. E que as casas construídas pelos irmãos são super bem feitas e bem planejadas. Mais um ponto pra eles.

A Lara tinha uma feira de Ciências na escola e os tópicos da classe eram automóveis e o ciclo da cana-de-acúcar. Combinamos com a professora e alguns outros alunos um passeio no Museu do Automóvel, no Parque Barigui, onde têm várias barracas de caldo de cana. Conversa vai, conversa vem, descobri que a professora é do bairro Bom Pastor, vizinho do Baeta. O pai dela adora o Baeta e trabalhou lá até se aposentar.

Dois dias depois, teve a feira de ciências  onde tive a oportunidade de conhecer as professoras, entre elas a de alemão. Conversa vai, conversa vem, ela me disse que achou coincidência a Lara ter morado em Bonn que é onde a irmã dela também mora. Ela disse que a irmã é jornalista e trabalha para Deutsche Welle. Aí, quem não acreditou fui eu, pois tenho muitas amigas que trabalham lá. E, por acaso, eu conhecia a irmã dela. Eita, mundão pequeno.

Medo dos Choques

Antes de mudarmos para Bonn, eu nunca havia morado em outro lugar além de SBCampo e SP. Não percebía que vivia em estresse constante em SP, além da ansiedade, depressão, síndrome do pânico, sinusite, dor de cabeça e dificuldade para dormir. Era normal ter trânsito pra ir e vir, barulho pra dormir, poluição constante, violência, preços altos, muitas pessoas mal-educadas,  frio dentro de casa. Quando chegamos em Bonn, debaixo de temperaturas negativas e neve, foi bom ver que  não passávamos frio dentro de casa.   Mas, além do frio e da neve, o choque foi grande mesmo assim devido à cultura, à língua, às pessoas. No entanto, não tinha trânsito, nem barulho, nem poluição, nem violência (como a conhecemos), nem preços altos (exceto prestação de serviços), nem shopping centers, nem mercados abertos aos domingos e as pessoas, ah, as pessoas. Gente mal-educada, que gosta de meter o bedelho na vida dos outros, que confunde estupidez com sinceridade,  tem em tudo quanto é lugar do muuundo, inclusive em país desenvolvido. Mas, com o tempo, a gente passa a ignorar esses tipos e se acostuma à cultura, à comida, ao dia-a-dia e passa até a gostar de certos comportamentos que, sem perceber, até os assimila. E quando tá engrenando, vem a mudança de novo.

Eu não posso dizer que não tive medo de retornar. O maior motivo do medo era a violência. As notícias que chegavam eram sempre as piores, tanto pela mídia quanto nos telefonemas com os parentes. E, tendo um olhar distante que só a vida em outro lugar nos dá, posso dizer que  não há povo que mais cospe no prato que come do que o brasileiro. E não há gente mais influenciável do que eu.  A sorte é que tinha uma amiga (aliás, ainda tenho e diga-se de passagem, minha melhor amiga por lá),  baiana foférrima e linda, mãe de primeiríssima grandeza, que me deu a maior força pra não ver o retorno pelos olhos negativos de gente que não consegue ter paixão pelo seu próprio país, como ela tem. E por ser esposa de alto comissário da polícia alemã, me fez ver que a violência, com maior ou menor crueldade ou frequência, existe em qualquer lugar, o que muda é o que vaza pra mídia e a oportunidade que a gente dá.

 Nunca havia morado em Curitiba, mas sabia que a cidade não tem um terço dos problemas de São Paulo. Tão logo nos mudamos para nossa casa (moramos dois meses certinhos com minha sogra e cunhada que nos deram a própria cama pra gente dormir. Obrigada aí, Vó e tia), foi como se eu nunca tivesse saído de um lugar onde nunca tinha morado. A re-adaptação foi perfeita. Não fiquei ansiosa, nem deprimida, e a vida em Bonn me parece hoje um passeio ligeiro que fiz há um tempão atrás. Não, não estou cuspindo no prato que comi. Eu o estou lambendo com gosto de quem saboreia o resto de uma comida boa. Foi uma experiência e tanto. Uma aventura até. Eu tenho uns flashes, como, por exemplo, quando falo que vou ao mercado e, imediatamente, me vem a mente os corredores do Lidl. Mas, fora isso, só ficou uma lembrança boa e, apesar de recente, distante. Não sei explicar o porquê dessa sensação. Tinha ouvido tanto falar da depressão do retorno, que estava com medo de tê-la. Mas não tive.

Agora, o choque foi com os preços. Levei quatro meses pra não cair pra trás, cada vez que tenho que pagar uma conta ou passar no caixa do supermercado. Agora, só levo uns choquinhos de vez em quando. Também estou chocada com a qualidade dos alimentos. É muito difícil encontrar algo que não tenha os "antes" da vida e, com certeza, as melhores frutas produzidas aqui são consumidas lá. Cansei de comprar frutas provenientes do Brasil na Alemanha, mas não as acho aqui com a mesma qualidade. Mas estamos encontrando o caminho das pedras, pois a variedade...  

Olhar o Brasil com outros olhos

Os olhos são os mesmos (um pouco mais gastos porque uma coisa que não funcionou pra mim em Bonn foi oculista), mas o olhar mudou. Antes de Bonn, eu não via flores, não via a natureza ao meu redor - exceto uma cegonha que passava pela minha janela na Av Jabaquara, todo dia de manhã e retornava à noite, como se acompanhasse o ritmo da cidade, e um urubu que fez ninho numa floreira do prédio vizinho. Em Bonn, tinhamos esquilos, gaivotas, coelhos, cisnes, patos, furões e até bandos de maritacas no meio da rua. Tinha o Reno, as flores, as árvores frutíferas e frutas silvestres no meio da rua, as estações do ano bem definidas, a neve, o frio e o calor (mais frio do que calor). Não sinto saudade disso, pois, como disse, voltei com o olhar diferente. Passei a amar e a cuidar de plantas e saber seus nomes, a reparar no pé de café na calçada do vizinho, a ver os sabiás comendo a laranja que teimou em ficar no pé bem do outro lado do muro do meu quintal dos fundos. A por o pé na grama, a ir ao parque e ver capivara, sapo e pato. Passei até a admirar o vira-lata esperto que sobe e desce a rua trocentas vezes ao dia. Não pensei que ainda fosse possível ver os vizinhos com suas cadeiras de praia sentados na calçada batendo papo num final de tarde, levando cachorro pra passear, roçando a grama e plantando flores. Não pensei em receber um saco de jabuticabas recém colhidas do quintal da vizinha. Ou chegar em casa e a outra vizinha vir trazer vários bulbos da sua planta que elogiei no começo do dia. Ou levar o meu filho pra cortar o cabelo no barbeiro com o quintal mais lindo que já vi e ganhar uma mudinha de palmeira jussara. Ou minha filha ter um girino de estimação, que está prestes a virar sapo (ele pula o baldinho, eu pulo o murinho). Ou ter o primeiro contato imediato com uma aranha marrom e já saber que era a dita cuja,  ou não saber que o meu dedo extremamente inchado, que me levou ao pronto-socorro num domingo de manhã, nada mais era do que uma picada de borrachudo.
É lindo ver o quanto meus filhos adoram estar aqui e não sofrem pela vida que deixaram pra trás, mas que sempre ficará na memória. Seus amiguinhos serão sempre amigos, não importa a distância e o tempo, porque foram cultivados e cativados. Assim como os meus.

Eu só posso dizer que estou feliz. E estou feliz por estar aqui. Por ver beleza onde muitos não conseguem e ver graça onde alguns teimam em só ver desgraça. Fiz o caminho de volta e está valendo a pena. E tudo vale a pena se a mala não é pequena.





 

domingo, 26 de maio de 2013

Me estrumbico, mas me comunico ou " Confiança é o caminho para ser fluente em uma segunda língua"

Moro na Alemanha há sete anos e meio e, por preguiça, indisciplina, falta de tempo e eventualidades inesperadas, não sou proficiente em alemão. Consigo me comunicar, entender e me fazer entender,  mas sempre me deparo com um breque provocado por falta de vocabulário ou estrutura gramatical. E aí, recorro ao inglês. Hoje falo um inglês recheado de palavras e pronúncia alemãs, somado ao meu inglês envolto em sotaque brasileiro. E falo um alemão recheado de palavras em inglês com um sotaque que não sei identificar e uma pronúncia forjada pela minha incapacidade de pronunciar determinados sons. Como digo, estou perdendo meu inglês, meu alemão é kaputt, mas ao menos ainda durmo com meu brasileiro :)

Pronúncia e sotaque

Em todos estes anos aqui, tenho amigos portugueses e brasileiros e alguns conhecidos alemães e de outras nacionalidades. Durante um tempo, fiz parte de um book club no qual nos comunicávamos em inglês e os integrantes eram em sua maioria falantes nativos da língua. Percebi que a exigência de se falar uma língua com pronúncia e sotaque nativos é tão utópica quanto achar possível negar a sua origem linguística. Eu tinha ( não era só eu) uma dificuldade tremenda de entender os diferentes sotaques e pronúncias das australianas, indianas, inglesas, sulafricanas, irlandesas e tinha uma escocesa que pronunciava as palavras extremamente diferente, além de ter um problema terrível de dicção.  Eu tinha que prestar atenção dobrada pra entender e me acostumar com os diferentes sotaques. Como nativas, elas usavam a gramática corretamente, mas as pronúncias e os sotaques eram dos mais variados e de dar nós nas minhas tripas auditivas. Mas não deixei de fazer parte do grupo até ele acabar.
Me lembro de um professor, quando estudei em Londres, que disse que quando ele chegou do sul da Inglaterra pra dar aulas, ele teve a pronúncia de algumas palavras corrigida por outros professsores. Ele ficou super encabulado, mas resolveu alterar a sua pronúncia, mesmo tendo dúvidas. Ao voltar pra sua cidade. em férias, percebeu que todos falavam daquele jeito. Foi aí que ele passou a não corrigir pronúncia que a princípio parecia errada, mas que não causava má interpretação ou dificuldade de comunicação, visto que é difícil saber se, talvez, em algum lugar onde o inglês é falado, a variável existe. 
Eu, por exemplo, tenho um problema para pronunciar o /R/ alemão. Se ele não for pronunciado guturalmente, como se estivéssemos limpando a garganta, ele tem o som do /H/. A Lara já me corrigiu quando eu quis dizer RAUS = sair e disse HAUS = casa. E por causa do /R/ eu tenho uma dificuldade tamanha pra dizer o nome da minha rua - Rüdigerstrasse. Mas conversando com uma professora que veio da Bavária, ela disse que eu poderia pronunciar o R como os bávaros, vibrando a ponta da língua. Pronto. Problema resolvido. Por estas experiências, passei a ser mais tolerante, a aceitar dos outros e a cobrar menos de mim a pronúncia e sotaques nativos, visto que não é natural abdicar completamente da influência da minha língua mãe (aliás, não é à toa que a chamamos assim) e da região do Brasil de onde vim.


Adoro este vídeo do Creature Comforts. A onça falando inglês com sotaque e trejeito brasileiros

Mas e quanto aos erros gramaticais?

A perfeição/precisão (em inglês, accuracy) ao falar uma língua  anda de mãos dadas com a fluência. No entanto, a fluência é capaz de andar com as próprias pernas, tropeçando aqui ou ali na accuracy, mas se levantando e mostrando ao que veio ao permitir uma comunicação completa, sem danos ou mal entendimento do que foi dito. (quê?) 
 Quando falamos a nossa própria língua errado ou fazemos uso inacurado de uma segunda língua ou língua estrangeira, quebramos a comunicação dependendo de onde, com quem, pra que e por que estamos nos comunicando. Se, num grupo, aceitamos o uso de determinados linguajares, gírias e erros, em outros, esse mesmo linguajar  poderá criar um ruido linguístico. É nóis.

E eu falei tudo isso aí em cima, pra chegar nesse ruido (eu sei, eu sei, a verborragia também é um ruido). Como professora de inglês e aprendiz de alemão, fiquei encafifada com algumas matérias que li  semana passada : "Brasil monoglota: ensino de língua estrangeira não funciona" , "Por que ainda estamos tão mal no inglês?  e fiquei pensando  por que os estudantes brasileiros de escolas públicas e privadas, que não frequentam escolas particulares de ensino de idiomas,  não são capazes de falar uma segunda - muito menos terceira - língua fluentemente, mesmo cometendo erros, enquanto, aqui na Europa, qualquer aluno consegue.

Serão  professores que não tem formação suficiente, nem didática, nem vivência na língua? Professores que perdem tanto tempo tentando transmitir o pouco que dominam através do ensino somente da gramática e que com isso fazem com que os alunos não encontrem o interesse por não ter a teoria conectada à prática? Professores, currículos e materiais escolares que visam um único aspecto da língua, esquecendo-se que as habilidades línguisticas se fazem nas formas oral, escrita e aural, além de conhecimento socio-cultural da língua? Será que é porque esquecem de funcionar como propulsores do conhecimento e continuam a ser meros transmissores do mísero conhecimento que têm? Será a falta das ferramentas necessárias/recursos para que as habilidades de comunicação se estabeleçam, levando à fluência? E quais seriam estes recursos? Será o desconhecimento do caminho das pedras para um aprendizado eficiente? Será desinteresse dos alunos? Dificuldade mental? Falta de motivação? Preguiça? Incapacidade de ser previdente e analisar a conjuntura atual do que leva um profissional a ser completo? Reordenação de prioridades? Falta de confiança no próprio taco pra falar mesmo cometendo erros?

 Conhecer a estrutura gramatical de uma língua e suas nuances dá confiança. Mas só ela não permite a comunicação. É preciso a confiança de se expor a erros e à prática da língua para podermos nos comunicar. É preciso aprender com os erros. Mas, para cometê-los, é preciso trazer a gramática à rotina, aos tropeços, à vida, na sala de aula e fora dela. Como já dito, a gramática, quando usada corretamente, evita os mal entendidos e os ruídos na comunicação, dependendo de onde, quando, por que, pra quem, entre quem a comunicação acontece.
 Quando um gerente de uma empresa  está apresentando um projeto ou mantendo uma negociação e comete erros crassos na língua em uso, ele pode gerar uma quebra na fluidez da conversa, desviando a atenção do conteúdo para a forma, podendo até gerar questionamentos sobreo que está sendo dito e sobre a capacidade profissional do aprensentador. Mas nem sempre isso ocorre, principalmente quando o deslize não afetou a comunicação ou quando a posição/capacidade profissional já está estabelecida ou o sucesso da interlocução não depende da precisão da língua. Um exemplo é o vídeo abaixo. Sebastião Salgado, famoso por suas obras fotográficas, apresenta  fluência impar em inglês, incomum para muitos brasileiros. No entanto, comete erros gramaticais e de pronúncia que doem nos ouvidos de alguns. Mas esses erros são relevados, pois sua competência já está estabelecida e a língua é só uma ferramenta pra transmitir suas ideias.    



Ele não se mostra constrangido por falar em público em uma língua que não a sua. Se faz entender e é aplaudido pelo conteúdo de sua apresentação. E aí está a confiança de usar a língua na prática e não se travar por não dominá-la por completo. Seus deslizes não afetam a comunicação e não o afetam (talvez porque ele não se aperceba deles). 
E então, vem uma outra reportagem que li sobre uma moça que morou no exterior, retornou ao Brasil e, apesar de "conseguir se comunicar em cinco línguas", segundo ela, não conseguia arranjar emprego. Ela omitiu no currículo sua formação em contabilidade e seu conhecimento das línguas para poder conseguir um emprego de faxineira. Ao ter seu (pouco) conhecimento reconhecido, mudou de posição e passou a ajudar turistas no Mercado Central de Belo Horizonte - MG. Ela não se preocupou com o fato de não falar fluentemente ou ser proficiente, mas sim poder se comunicar, entender e se fazer entender e sua força de vontade e auto-confiança foram reconhecidas.
 Mas, conforme pode ser lido nos comentários, sempre tem aqueles que tentam por as pessoas pra baixo, seja por inveja ou por eterno prazer em menosprezar os outros, em minar a confiança.  Ela vem recebendo várias críticas de quem se apegou ao fato dela ter omitido a sua formação no currículo, chamando isso de fraude/falsidade ideológica (apesar dela não ter mentido pra mais e sim pra menos); de quem questiona se realmente ela é capaz de falar as línguas que diz que fala; de quem tira o sarro de como ela fala o holandês, dizendo até que ela era conhecida da polícia na Holanda.
Mas quantas pessoas no Brasil se arriscam a ao menos tentar falar uma outra língua? Quantos balconistas de padaria conseguem falar além do português? Quantas pessoas com formação profissional elevada não conseguem arranjar um novo emprego, pois não dominam um outro idioma? Como dizem em uma das reportagens citadas acima, é  mais rápido para uma empresa investir na qualificação e na capacitação profissional do que ensinar inglês para um funcionário. Portanto, eles estão afrouxando os requisitos para contratação, mas não abrem mão do conhecimento de uma segunda língua, que normalmente é o inglês. E pra quem não quer se esforçar pra abrir a boca e se fazer entender em outra língua, é melhor abrir os olhos, porque, afinal, em terra de monoglota quem tem duas línguas é rei. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cuidar dos próprios filhos é considerado emprego na Alemanha

Para aqueles que acreditam que pagam imposto pra sustentar vagabundo que põe filho no mundo só pra viver da ajuda social do governo, a informação abaixo cai como mais uma bomba: 

O TRABALHO DE SER MÃE E DONA-DE-CASA FULL TIME É RECONHECIDO PELO GOVERNO ALEMÃO!!!!


Quando tive meu segundo filho aqui, recebi uma carta do Deutsche Rentenversicherung (o INSS alemão) dizendo que, por não estar registrada como empregado, trabalhador temporário ou autônomo, ou seja, por não contribuir mensalmente com o DRV, eu teria o direito, durante os três primeiros anos de vida do meu filho, ao recolhimento mensal efetuado pela própria intituição em meu favor. Como quando a esmola é demais, o santo desconfia, eu não dei muita bola pro babado, pra não levantar a lebre e acabar descobrindo  que eu teria que fazer algo pra merecer isso.

Mas, como não se pode fugir da lei aqui na Alemanha, semana passada, fui ao DRV regularizar a minha situação. E aí, fiquei mais surpresa ainda. Descobri que o governo alemão  considera que a mulher que não trabalha FORA de casa, além do benefício acima, tem os 10 primeiros anos de vida de cada filho (não cumulativos) contados como tempo de serviço. Ou seja, se eu permanecer em território alemão até meus filhos completarem 10 anos, este período é contado como tempo de serviço, caso eu queira me aposentar por tempo de serviço. E aí fiquei mais surpresa ainda por saber que eu também tenho direito ao tempo que cuidei da minha filha mais velha em território alemão, mesmo ela não tendo nascido aqui. E mais ainda, descobri que o tempo que se estuda dos 17 aos 25 anos também é contado como tempo de serviço, independentemente de onde (país ou escola) você estudou.

Descobri também que qualquer mulher que, numa somatória, cuidar de filhos por no mínimo 5 anos em território alemão já tem direito à aposentadoria. Isso mesmo, tem direito a receber dinheiroooo!!!! No meu caso, como eu cuidei da minha primeira filha por 2 anos e meio e em julho faz 2 anos e meio que cuido do meu filho, se eu voltar para o Brasil em julho, terei completado 5 anos de "trabalho de mãe" e com isso, a funcionária já até calculou quanto eu receberei assim que completar 67 anos de idade (não existe distinção entre sexo pra se aposentar na Alemanha, homens e mulheres se aposentam por idade aos 67 anos). O governo paga atualmente 28 euros por ano de cuidados aos filhos. Portanto, eu receberei automaticamente na minha conta bancária, em qualquer lugar do mundo, o valor de 140 euros até eu bater as botas, só por ter cuidado dos meus filhos.  Quanto mais filho se tem e quanto mais tempo se cuida deles nos três primeiros anos em território alemão, maior será o valor pago de aposentadoria pra uma mulher que SÓ foi mãe e dona-de-casa. 

No caso de cuidar dos filhos por 10 anos (lembrando que não cumulativos) e considerar o tempo de estudos dos 17 aos 25 anos, estes períodos só serão contados como tempo de serviço e não de contribuição, sendo considerados somente para aposentadoria por 35 anos de serviço, com os descontos proporcionais cabíveis. 

Novo acordo previdenciário entre Brasil e Alemanha.

De acordo com o novo acordo, que passará a valer a partir de primeiro de maio próximo, o brasileiro  que trabalhou na Alemanha e que contribuiu por um prazo mínimo de 60 meses (5 anos), ao completar 67 anos, tem direito a receber aposentadoria do governo alemão proporcional ao tempo trabalhado, independentemente de receber aposentadoria também no Brasil. E se o cara estiver em qualquer lugar do mundo, basta mandar o número da conta bancária que o DSV se encarregada de depositar o dinheiro quentinho mensalmente na conta, pro velhinho não ter que se preocupar. 

Até antes da assinatura do acordo, quem retornasse ao Brasil poderia, após dois anos fora da Alemanha, solicitar o reembolso dos recolhimentos efetuados pelo empregado (e não os do empregador) ao DSV integralmente. No entanto, ainda não está claro se essa medida continuará valendo, apesar da funcionária me informar que isso não será mais possível. Ao ler o acordo, não vi nada dizendo que não poderia. Então, é questão de se tentar.

Portanto, mães que moram na Alemanha, façam valer os seus direitos. Pra isso, basta marcar um horário de atendimento no DSV da sua cidade e levar os seguintes documentos:

  • Certidão de nascimento dos filhos
  • Seu passaporte com a permissão de residência ou Ausweis se você já tiver cidadania.
  • Certificados de estudos (diplomas e históricos escolares) realizados entre os 17 e 25 anos de idade. Não precisam ser traduzidos, mas precisa constar o mês e o ano de início e término. Não basta constar,  como no meu caso, por exemplo, primeiro semestre 1980.


Se o funcionário for tão solícito e paciente quanto a que me atendeu, você vai ter tudo calculadinho e explicadinho com valores e datas que você receberá seu dindin após completar 67 anos.


DEFINITIVAMENTE, PODE-SE DIZER QUE SÓ UM PAÍS QUE É UMA MÃE RECONHECE O TRABALHO DE SER MÃE  

Maiores informações no site do Deutsche Rentenversicherung


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Nadar é preciso


Eu não sei nadar e sou (ligeiramente) frustrada por isso. Tentei aprender quando adolescente, mas, por um problema de coordenação, respirei dentro d'água e soltei o ar fora e tive a primeira experiência de afogamento. E daí, nunca mais tive coragem de enfrentar o elemento. Minha filha, pelo contrário, adora. E estamos tentando incentivar isso. Acredito que aprender a nadar na Alemanha é muito mais fácil devido ao apoio dos vários níveis de governo e de clubes esportivos espalhados por todas as cidades. Mas não é só apoio, é exigência também. Natação faz parte do currículo da educação básica, ao menos aqui no Estado em que moramos - Nordrhein Westfalen. Normalmente, as aulas de natação em escolas que não tem piscina ou que ficam longe de uma, começam a partir da terceira classe.
Com receio de que minha filha viesse a ter problemas de adaptação e por ser algo que ela sempre quis aprender e que consideramos importante pro resto da vida, contratamos um professor particular. Na verdade, ele é o Bademeister de uma piscina pública em uma vila aqui perto de casa. As aulas não são baratas (20 euros por meia hora) mas são eficazes, melhor do que se ela fizesse um curso com várias crianças. Ela apresentou um desenvolvimento muito grande e já está com o título bronze. O que é isso?

Após um horrível acidente no litoral norte da Alemanha, onde várias pessoas morreram afogadas, foi fundada em 1913, em Leipzig, uma organização chamada DLRG - Deutsche Lebens-Rettung-Gesellschaft (organização alemã de salvamento). O intuito principal desta organização é evitar a morte por afogamento. Isso é feito através de serviços de proteção dentro e ao redor de áreas aquáticas, bem como cursos fornecidos por instituições ou pessoas vinculadas à organização (como é o caso do professor da Lara) seguindo um padrão apresentado através de títulos, representados por um certificado/passaporte (Schwimmpass) e um distintivo pra ser bordado no maiô, dado à criança ou jovem que atingir os requisitos de cada título.

Primeiro título - Seepferdchen ( cavalo marinho)

A criança tem que atingir os seguintes requisitos básicos:


  • Pular da borda da piscina.
  • Nadar 25 metros (uma piscina)
  • Mergulhar da superfície da água e buscar um Tauchring (um anel pesado que não boia) no fundo de uma piscina com profundidade à altura do ombro.


Segundo título - Bronze


A criança tem que atingir os seguintes requisitos:




  • Mergulhar da borda da piscina
  • Nadar 200 metros (8 piscinas) em, no máximo, 15 minutos
  • Mergulhar da superfície da água e buscar um Tauchring no fundo de uma piscina com 2 metros de profundidade.
  • Mergulhar de um metro de altura ou um mergulho inicial (Startsprung).
  • Conhecimento das regras de natação.

Terceiro título - Silber (Prata)

A criança/jovem tem que atingir os seguintes requisitos:
  • Startsprung 
  • Nadar 400 metros (16 piscinas) em, no máximo, 25 minutos, sendo 300 metros nado de peito e 100 metros nado de costas
  • Mergulhar 2 metros  da superfície da água e buscar um Tauchring - duas vezes.
  • Nadar 10 metros sob a água 
  • Pular de 3 metros de altura
  • Conhecimento das regras de natação e auto-salvamento.

Quarto - Gold (Ouro)

Somente para crianças acima de 9 anos.

A criança/jovem tem que atingir os seguintes requisitos:

  • Nadar 600 metros (24 piscinas) em 24 minutos
  • 50 m nado de peito em, no máximo 1m10s
  • 25 m nado Crawl
  • 50 m nado de costas sem uso dos braços ou 50 metros de nado Crawl de costas
  • 15 m de nado sob a água
  • Mergulhar 2 metros da superfície da água e buscar 3 Tauchringen em 3 minutos e com                três tentativas somente
  • Mergulhar de 3 metros de altura.
  • 50 m nado com carga, empurrando ou puxando
  • Conhecimento das regras de natação
  • Prestar socorro em caso de acidentes em piscina, barcos e gelo (auto-salvamento e de terceiros).

Estes são os títulos para crianças e jovens, mas existem vários outros como, por exemplo, para adultos, nado para salvamento, mergulho com snorkel etc. Tem inclusive os campeonatos em cada categoria, todos administrados pela DLRG e fornecidos por instituições e clubes espalhados pela Alemanha. Não é preciso fazer aulas para fazer as provas. Na piscina onde levo a Lara, tem pais e até avós que ensinam filhos/netos a nadar  dentro dos parâmetros exigidos para cada nível/título e depois é só agendar a prova com o Bademeister. Mas tudo isso só é oferecido porque existe estrutura tanto pública quanto dos clubes que toda cidade e até vila tem.  E é bom saber que ter o título não é uma exigência, saber nadar é.

Como mãe que não sabe nadar e que tem um grande certo medo de água, eu aconselho a colocar os filhos o mais cedo possível em contato com as regras e práticas de natação e salvamento para que não tenhamos um problema com a escola e/ou com a criança (trauma, não querer ir pra escola, ser vítima de chacota) quando esta for obrigada a fazer as aulas de natação na escola. Além disso, saber nadar (tendo títulos ou não) é um recurso e habilidade importante para a vida de qualquer ser humano, uma forma de evitar que, por medo ou incapacidade, este se prive da alegria de poder participar de atividades de recreação aquática ou de poder se livrar de um acidente fatal para si ou para outrem. Eu que o diga!




segunda-feira, 11 de março de 2013

Hai Kai 45

Peito Kai
Bunda Kai
Barriga Kai
Kara Kai
Eu de pé.
Ainda.

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