Eu acho que tem gente aí no Brasil que acha que no rio Reno corre dinheiro e a gente nada nele. Só porque moramos na Europa, pensam que eu ando de carro importado ( se bem que aqui carro nacional é Mercedes, Audi, BMW), de salto alto, com roupas de grife, pendurada de jóias, com cabelos e unhas feitas toda semana. Pensam que o meu dia é ir às compras, ir à Academia, sair com as amigas (se bem que aqui isso é normal mesmo em dia de semana), passear com a Lara e a babá a tiracolo, enquanto carrego sacolas e mais sacolas de lojas carésimas e por isso, acham que não tem problema nenhum exigir que "colaboremos" com uma quantia aqui outra ali ou que estamos em situação milhares de vezes melhor do que a deles, pobres coitados, ou que a inveja os cegou tanto que nem mesmo contato tem interesse em manter com a gente.
Ao contrário do que se passa na cabeça dessas pessoas, que deixam a inveja falar mais alto e anuviar a realidade, nossa vida não é a mesma levada pelos VIPs europeus e é, na realidade, muito mais simples do que a que levávamos na terrinha. Viemos para cá, meu marido como empregado ( e não diretor, VP ou dono) de empresa multinacional, e eu como dona-de-casa e mãe 24 por 7. A rotina dele é de casa para o trabalho e vice-versa e de ônibus, diga-se de passagem. Temos um VW, que só eu dirijo porque o marido não teve tempo hábil de tirar a carteira alemã de tanto que tem que trabalhar e viajar (agora nem isso) a serviço.
O meu jeito de ganhar dinheiro é não gastá-lo ou ao menos tentar economizá-lo. Limpo a casa, lavo roupa, passo, faço compras sempre procurando as ofertas. NUNCA tive empregada aqui, porque elas cobram 10 euros a hora e quem faz a hora são elas. Prefiro, por isso, limpar a casa eu mesma e economizar ou gastar o dinheiro em algo mais duradouro - até já me passou pela cabeça ir fazer limpeza na casa dos outros, porque nem como professora no Brasil eu ganhava o equivalente a 10 euros por hora. Nunca tive babá, baby-sitter, au pair, nem mesmo pra ficar com a Lara à noite pra jantarmos fora como um casal. Levo a Lara pra escola, busco, levo de novo para as atividades extras. O chauffeur aqui sou eu.
Minhas compras de roupas e sapatos se resumem as lojas populares e me nego terminantemente a pagar mais do que 20 euros em uma peça de roupa ou sapato, muito menos para a Lara. NUNCA fiz limpeza de pele por essas bandas, meus batons não custam mais do que 3 euros e não compro produtos de beleza de marca, pelo contrário, uso no rosto o que minha filha usa na bun...no corpo. Em quase cinco anos de Alemanha, fui ao cabeleireiro cortar os cabelos uma vez e me arrependi. Corto meus cabelos com o meu cunhado nas poucas vezes que vou ao Brasil. Em todo esse tempo, fiz massagens 2 vezes sendo uma delas em um hotel numa viagem à Espanha como uma presente do meu querido marido e a outra não por luxo, mas por necessidade; tive minhas unhas pintadas 2 vezes por uma brasileira (10 euros) e uma outra vez porque ganhei de um Nagelstudio (salão de manicure/pedicure) do bairro uma manicure sem direito a tirar cutículas (costume alemão, que custa no minimo 15 euros) por eu tê-la indicado a algumas amigas minhas mesmo sem nem ter ido lá antes.
Eu sei que é preciso ter um pouco de vaidade e se voltar um pouco pra si de vez em quando, como diz meu próprio marido, mas eu prefiro não ter luxo e - quando dá - passear e viajar. Nossa vida aqui não é definitiva e precisamos também nos preparar para qualquer possibilidade ou eventualidade, pois afinal estamos em uma terra estranha aos nossos costumes e leis e, sem dominar o idioma, sempre temos que contar com alguém para nos das suporte, o que não é barato. Além do mais, tenho uma filha pra cuidar e um na barriga e o único "who brings home the wurst" é o meu marido e se algo der errado, estamos fu..ritos. Eu tenho o luxo de dizer que não sou uma desempregada e sim que optei por não trabalhar. O que não quer dizer que sou vaga. Meu trabalho consiste em gerenciar a casa, a filha e a barriga, no momento. Não nadamos em dinheiro e nem pescamos "Geldfish" no Reno e nem de longe costumamos esbanjar em festanças, roupas de grife e quinquilharias de beleza. Ao contrário, os únicos momentos que consideramos indulgências são ir a restaurantes - às vezes - e viajar. Sem luxo, sem frescuras. Não dá pra negar que temos a sorte de viver num lugar em que outras pessoas vem passar as férias e onde a qualidade de vida por si só já vale muito. Então, para aqueles que destilam suas energias negativas, ou que voltam seus olhos gordos em nossa direção, repensem o seu alvo, reavaliem a realidade e vai ver se eu tô lá onde o rio faz a curva.